
Sorriso Maroto – Sinais (Ao Vivo) – 2010
“Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.” – Charles Baudelaire
O tempo, essa medida arbitrária da duração das coisas, essa série initerrupta e eterna de instantes. A intransponível barreira do passado nunca representou maior – e mais árduo – obstáculo. O que foi não volta mais, e às cinzas só resta a dolorosa saudade de seu prévio existir como (ins-pira-da?) fogueira – sem ir além, à lenha. A polaróide de um tempo que se foi, tão instantânea quanto (vã) evanescente, a marca indelével, ainda leve, de uma vida passada. O antes anterior, tão verde quanto a proverbial grama do vizinho. O passado, esse vizinho de gramado vistoso, transforma o presente numa palha cinza e seca, pronta para entrar em ebulição na primeira fagulha da saudade.
Bruno, Cris, Fred, Sérgio e Vinícius, mais do que nunca, exigem a volta do que foi, às voltas com o que foi. Orfeus às avessas, são condenados à sempre olharem para trás, nunca vendo o futuro que lhes espera à frente. Dessa forma, nunca trarão sua simbólica Eurídice (uma mulher de mil facetas – ou mil mulheres de uma faceta?) de volta à vida. Desejam retornar àquele gramado ensolarado, e viver novamente aquele amor – se é que o amor foi vivido da primeira vez. Pois há a possibilidade de Sorriso Maroto estar versando sobre a memória inventada, sobre o reflexo e não sobre o que era refletido – num espelho que, a cada dia, insiste que não há memória mais clara do que a de si (para si?) própria: a memória em si. Os “Sinais”, mais do que os signos, mais importantes do que o significado, como diria, sobretudo, Walter Benjamin.
Sorriso Maroto? Sorriso Mar-oto. So-ri-so Garoto. So-riso Ma-roto.
Ao Sorriso Maroto, agora, tragicamente, resta somente o futuro.
